quarta-feira, 28 de abril de 2010

Capítulo II

Carlos abriu os olhos. Tinha dormido? A única luz na sala vinha das velas que estavam quase no fim. Tinha dormido. Olhou pra Sara. Ela encarava o teto escuro sem esperanças no rosto. Apenas esperando seu final iminente.

- Boa tarde – disse a moça pálida para Carlos, depois deu um risinho.

- Você acha mesmo que não vão encontrar a gente aqui? – Perguntou Carlos indignado.

- Acho. – respondeu simplesmente – Não, tenho certeza.

- O que te faz ter tanta certeza? – Carlos perguntou desafiante

Num segundo, a moça que estava a 30 metros de distancia, atravessou a sala e colou o rosto no de Carlos, assustando-o.

- Isso me faz ter tanta certeza.

- Como você fez isso?

E ela acendeu os olhos. Duas bolas cor de brasa que assustavam. Ela sentiu que a pulsação de Carlos aumentava. Ele estava com medo. Talvez já soubesse sua natureza, mas quis deixar bem claro que tipo de criatura era. Mostrou também dois enormes caninos. Mas não como uma fera que urra. Mostrou os caninos no meio de um sorriso. Sorriso arrogante e macabro. Mas vendo que Sara entrava em choque voltou ao normal.

- Sim, queridos amigos, eu sou uma vampira. – virou-se de costas meio que envergonhada.

Depois de alguns segundos em silencio completou:

- E ela é um lobisomem.

A vampira sentou-se no chão e ficou pensativa. Um pesado silêncio tomou conta do lugar. Depois ela recomeçou a falar.

- Nós estamos aqui há sete meses. Ninguém nunca veio nos perturbar. E eu conheço essa gruta inteira, ela não termina em Minas Gerais. – deu um leve sorriso – Também não existe uma moça presa aqui. Existem duas.

Um grito saiu do outro lado da sala. Grito de dor.

- Começou. – disse a vampira levantando-se.

- O que? O que tá acontecendo? – Perguntou Sara.

Mais gritos.

- A transformação. Já é noite. Noite de lua cheia – e virou-se para os dois amarrados no chão – Você primeiro. – e caminhou até Sara.

Segurou-a pelo pescoço.

- Carlos, eu te amo!

- Também te amo! – gritou Carlos de volta.

- Também te amo. – disse a vampira em seu ouvido.

Seus olhos brilharam e os enormes caninos apareceram. Ela os cravou no pescoço de Sara, que ainda estava amarrada. E sugou. A vampira fechou os olhos num delírio orgasmático. Ah! Como gostava daquela sensação. O sangue descendo pelo corpo fazendo com se sentisse quente. E super. Se sentir super era a melhor parte.

Sara ia desfalecendo aos poucos. Fechou os olhos e o corpo ia ficando solto. Por fim a vampira colocou-a morta no chão. Um urro estrondoso assustou Carlos, mas não a vampira. Ela já estava acostumada. Carlos ficou petrificado quando viu a fera que saía da escuridão. Olhos enormes e amarelos primeiro. Depois as peludas patas dianteiras, com garras enormes. Aos poucos uma fera descomunal aparecia na claridade flutuante das velas. A bocarra escancarada trazia presas afiadas. A fera urrou mais uma vez.

- Pronto. – disse a vampira desamarrando o corpo de Sara – Pode começar.

Depois se levantou e limpou o queixo sujo de sangue nas cosas da mão. Caminhou até as velas e disse para Carlos:

- Você não vai querer ver isso. – e as apagou.

A fera se aproximou do corpo. Farejou. E como um cão esfomeado estraçalhou o corpo que jazia no chão. Mastigava com gosto, o som dos ossos quebrando sob a força da mandíbula se propagava na sala. A vampira desamarrou Carlos e disse:

- Agora é você, gostoso.

Carlos tentou se desvencilhar, mas foi impossível. Aquela moça magrela tinha a força de 40 homens. A vampira cravou os dentes na jugular dele. Sugou um pouco, mas logo parou. Olhou nos olhos dele e disse:

- Também te amo.

Voltou a sugar. E Carlos foi aos poucos ficando mais fraco. Quando ela enfim terminou a lobisomem já esperava o segundo prato. A vampira colocou o corpo enorme e moreno no chão e deu um salto, foi parar numa das pedras lá cima. A lobisomem não perdeu tempo. Devorou o corpo de Carlos como o de Sara. Com fome bestial. Demorou um pouco mais nele. E parecia se deliciar mais. Assim que acabou saiu à procura de mais.

A vampira a seguia de cima, deixando os olhos acessos. Enxergava como se fosse de dia assim. Já a lobisomem enxergava tudo com um tom de amarelo, não tão bem quanto a vampira, mas ainda sim com nitidez. A vampira deixava a irmã livre, não era uma boa idéia se engalfinhar com um lobisomem no primeiro dia de fúria. Só desceria se fosse extremamente necessário, caso a irmã procurasse a saída. Mas a gruta por si só era um labirinto, já deixava a lobisomem ocupada.

Mas a lobisomem logo começou a andar mais devagar, como se estivesse cansada. A vampira, que conhecia muito bem aquela rotina, sabia que lá fora o dia amanhecia. Em breve a irmã estaria de volta. Não demorou a acontecer. Pouco depois uma mocinha franzina de cabelos negros apareceu deitada nua no chão. A vampira a pegou nos braços e a levou de volta ao esconderijo.

- Descanse, renove suas forças. – disse colocando-a na cama improvisada e cobrindo-a.

Logo a lobisomem adormeceu. A vampira agachou-se no chão e entrou em estado de vigília. Quase dormindo e quase acordada. Quando a irmã estava transformada preferia ficar alerta. Mas aquela manhã transcorreu sem problemas.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Capítulo I

O bondinho ia descendo suavemente. Carlos sentiu o ouvido fechando devido à rápida mudança de altitude. Estava ali com a namorada comemorando o quarto ano de namoro e seu vigésimo sétimo aniversário. Fazia parte de uma grande excursão que visitava a tão famosa e misteriosa gruta de Ubajara. Sara, a namorada, observava tudo e apontava feito criança, dando pulinhos cada vez que algo diferente aparecia.

Quando o teleférico parou um grupo enorme de pessoas se organizavam para entrar na gruta. Um dos guias começou a falar:

- Não importa a hora do dia ou da noite, ela sempre está escura. Fiquem sempre juntos e cuidado com o caminho. O final da gruta ainda não foi descoberto, diz uma lenda que acaba em Minas Gerais.

- Outra lenda – continuou o outro guia – diz que existe uma jovem presa aqui dentro, mas ela nunca foi encontrada. Alguns visitantes dizem ouvir gritos e lamúrias de vez em quando, mas o som que a gente escuta é o vento passando pelas frestas das rochas.

O primeiro guia começou a falar da geografia do lugar. Da umidade relativa do ar, a pressão atmosférica, a altitude e a distância do Equador. Mas Carlos não estava interessado nessas informações, estava mais interessado em beijar sua bela namorada. Olhou o relógio, que marcava nove e dez, e seguiu as pessoas que entravam na misteriosa gruta. O guia continuou falando:

- As pesquisas feitas no local nos levam a acreditar que a gruta é do período Paleozóico, que tem em média 400 milhões de anos. Dentro da caverna são encontrados estalagmites e estalactites que demoram cerca de 100 anos para crescer 1 cm. Vários animais são encontrados no parque entre tatus, iguanas e cobras, na gruta já foi encontrado uma vez um morcego albino. Ubajara quer dizer Senhor da canoa e recebe em média 75 mil visitantes por ano, mas a maior movimentação é nas férias e feriados prolongados. Nas décadas de 40 e 50 aconteciam rituais religiosos dentro da gruta, como batizados e casamentos e a prova é que deixaram uma santa de lembrança.

Ninguém pareceu notar que no meio da visita o grupo ganhou mais uma participante. Uma garota bem pálida e magricela se juntou aos turistas. Vestia uma camiseta branca e calça jeans, ambas masculinas e tinha uma feição de quem procurava sutilmente por alguma coisa. Ninguém pareceu notar também que essa garota magricela levou dalí sem dificuldade o morenão e a namorada dele.

Carlos não entendia como aquela menina franzina conseguia segurar seus dois braços com uma mão só. E nem entendia como ela podia ser tão gelada. Tentou se desvencilhar sem sucesso da moça.

- Nem adianta tentar – disse a garota pálida – não adianta gritar também.

Sara estremeceu e se arrepiou dos pés à cabeça. Com uma rapidez impressionante a moça pálida amarrou os dois com as mãos às costas. Amarrou os pés de Sara e estava amarrando os de Carlos quando ele deu-lhe um chute bem no meio da cara. Ela desequilibrou-se e caiu sentada no chão, ao mesmo tempo em que seus olhos se transformaram em duas bolas cor de brasa assustadoras. Mas logo se apagaram. Foi a vez de Carlos estremecer dos pés à cabeça.

Ela levantou-se mais rápido do que quando os amarrava e segurou Carlos pela traquéia. Ele sentiu uma enorme dor e falta de ar. A branquela aproximou-se ainda mais dele, farejando-o. Largou-o agonizante no chão e disse:

- Por volta de trinta anos... Uma das melhores safras – tinha uma voz inquietante, calma, mas sinistra – E moreno assim, é uma delícia.

Acendeu um candelabro com sete velas. Os dois puderam notar com a melhora da luz o quanto a moça era pálida. Tinha olheiras e uma fisionomia sinistra. Sara começou a chorar.

- Ah querida – disse com sarcasmo enquanto se agachava entre Sara e Carlos e limpava calmamente as lágrimas do rosto dela. – prometo que não vai doer. Só um pouquinho, uma mordidinha de nada.

Um gemido de dor saiu das sombras e assustou o jovem casal. A moça pálida pegou o candelabro e caminhou até o final da sala. Lá os dois puderam ver uma jovem de cabelos negros deitada sobre umas rochas. Estava num estado deplorável. Vestia-se de trapos e parecia terrivelmente doente. Ela levantou um pouco o rosto e Carlos notou como as duas eram parecidas. Carlos notou também uma enorme caixa de madeira encostada na parede.

- Não se preocupe, tá tudo sobre controle.

- Por favor, não machuca a gente. – pediu Sara em prantos – É dinheiro que você quer? A gente te dá.

- Eu não quero dinheiro – disse tranquilamente arrumando alguns objetos na mala – Nem ela.

- O que você quer, então?

Ainda agachada ela virou e mirou os dois por um instante. Talvez eles merecessem essa explicação.

- Eu quero seu sangue – disse simplesmente – ela quer sua carne. E voltou ao que fazia.

Carlos não sabia se ria ou levava a sério. Essa história de sangue parecia absolutamente ridícula, mas por outro lado estavam no escuro de uma gruta com uma moça pálida e gelada feito um picolé. Resolveu levar a sério. Quando enfim começou a pensar racionalmente chegou à conclusão que não veria a luz do dia novamente. Rezou todas as orações que sabia e disse à namorada que a amava, mais que tudo no mundo. Só restou aos dois esperar.