Carlos abriu os olhos. Tinha dormido? A única luz na sala vinha das velas que estavam quase no fim. Tinha dormido. Olhou pra Sara. Ela encarava o teto escuro sem esperanças no rosto. Apenas esperando seu final iminente.
- Boa tarde – disse a moça pálida para Carlos, depois deu um risinho.
- Você acha mesmo que não vão encontrar a gente aqui? – Perguntou Carlos indignado.
- Acho. – respondeu simplesmente – Não, tenho certeza.
- O que te faz ter tanta certeza? – Carlos perguntou desafiante
Num segundo, a moça que estava a 30 metros de distancia, atravessou a sala e colou o rosto no de Carlos, assustando-o.
- Isso me faz ter tanta certeza.
- Como você fez isso?
E ela acendeu os olhos. Duas bolas cor de brasa que assustavam. Ela sentiu que a pulsação de Carlos aumentava. Ele estava com medo. Talvez já soubesse sua natureza, mas quis deixar bem claro que tipo de criatura era. Mostrou também dois enormes caninos. Mas não como uma fera que urra. Mostrou os caninos no meio de um sorriso. Sorriso arrogante e macabro. Mas vendo que Sara entrava em choque voltou ao normal.
- Sim, queridos amigos, eu sou uma vampira. – virou-se de costas meio que envergonhada.
Depois de alguns segundos em silencio completou:
- E ela é um lobisomem.
A vampira sentou-se no chão e ficou pensativa. Um pesado silêncio tomou conta do lugar. Depois ela recomeçou a falar.
- Nós estamos aqui há sete meses. Ninguém nunca veio nos perturbar. E eu conheço essa gruta inteira, ela não termina em Minas Gerais. – deu um leve sorriso – Também não existe uma moça presa aqui. Existem duas.
Um grito saiu do outro lado da sala. Grito de dor.
- Começou. – disse a vampira levantando-se.
- O que? O que tá acontecendo? – Perguntou Sara.
Mais gritos.
- A transformação. Já é noite. Noite de lua cheia – e virou-se para os dois amarrados no chão – Você primeiro. – e caminhou até Sara.
Segurou-a pelo pescoço.
- Carlos, eu te amo!
- Também te amo! – gritou Carlos de volta.
- Também te amo. – disse a vampira em seu ouvido.
Seus olhos brilharam e os enormes caninos apareceram. Ela os cravou no pescoço de Sara, que ainda estava amarrada. E sugou. A vampira fechou os olhos num delírio orgasmático. Ah! Como gostava daquela sensação. O sangue descendo pelo corpo fazendo com se sentisse quente. E super. Se sentir super era a melhor parte.
Sara ia desfalecendo aos poucos. Fechou os olhos e o corpo ia ficando solto. Por fim a vampira colocou-a morta no chão. Um urro estrondoso assustou Carlos, mas não a vampira. Ela já estava acostumada. Carlos ficou petrificado quando viu a fera que saía da escuridão. Olhos enormes e amarelos primeiro. Depois as peludas patas dianteiras, com garras enormes. Aos poucos uma fera descomunal aparecia na claridade flutuante das velas. A bocarra escancarada trazia presas afiadas. A fera urrou mais uma vez.
- Pronto. – disse a vampira desamarrando o corpo de Sara – Pode começar.
Depois se levantou e limpou o queixo sujo de sangue nas cosas da mão. Caminhou até as velas e disse para Carlos:
- Você não vai querer ver isso. – e as apagou.
A fera se aproximou do corpo. Farejou. E como um cão esfomeado estraçalhou o corpo que jazia no chão. Mastigava com gosto, o som dos ossos quebrando sob a força da mandíbula se propagava na sala. A vampira desamarrou Carlos e disse:
- Agora é você, gostoso.
Carlos tentou se desvencilhar, mas foi impossível. Aquela moça magrela tinha a força de 40 homens. A vampira cravou os dentes na jugular dele. Sugou um pouco, mas logo parou. Olhou nos olhos dele e disse:
- Também te amo.
Voltou a sugar. E Carlos foi aos poucos ficando mais fraco. Quando ela enfim terminou a lobisomem já esperava o segundo prato. A vampira colocou o corpo enorme e moreno no chão e deu um salto, foi parar numa das pedras lá cima. A lobisomem não perdeu tempo. Devorou o corpo de Carlos como o de Sara. Com fome bestial. Demorou um pouco mais nele. E parecia se deliciar mais. Assim que acabou saiu à procura de mais.
A vampira a seguia de cima, deixando os olhos acessos. Enxergava como se fosse de dia assim. Já a lobisomem enxergava tudo com um tom de amarelo, não tão bem quanto a vampira, mas ainda sim com nitidez. A vampira deixava a irmã livre, não era uma boa idéia se engalfinhar com um lobisomem no primeiro dia de fúria. Só desceria se fosse extremamente necessário, caso a irmã procurasse a saída. Mas a gruta por si só era um labirinto, já deixava a lobisomem ocupada.
Mas a lobisomem logo começou a andar mais devagar, como se estivesse cansada. A vampira, que conhecia muito bem aquela rotina, sabia que lá fora o dia amanhecia. Em breve a irmã estaria de volta. Não demorou a acontecer. Pouco depois uma mocinha franzina de cabelos negros apareceu deitada nua no chão. A vampira a pegou nos braços e a levou de volta ao esconderijo.
- Descanse, renove suas forças. – disse colocando-a na cama improvisada e cobrindo-a.
Logo a lobisomem adormeceu. A vampira agachou-se no chão e entrou em estado de vigília. Quase dormindo e quase acordada. Quando a irmã estava transformada preferia ficar alerta. Mas aquela manhã transcorreu sem problemas.