quarta-feira, 21 de abril de 2010

Capítulo I

O bondinho ia descendo suavemente. Carlos sentiu o ouvido fechando devido à rápida mudança de altitude. Estava ali com a namorada comemorando o quarto ano de namoro e seu vigésimo sétimo aniversário. Fazia parte de uma grande excursão que visitava a tão famosa e misteriosa gruta de Ubajara. Sara, a namorada, observava tudo e apontava feito criança, dando pulinhos cada vez que algo diferente aparecia.

Quando o teleférico parou um grupo enorme de pessoas se organizavam para entrar na gruta. Um dos guias começou a falar:

- Não importa a hora do dia ou da noite, ela sempre está escura. Fiquem sempre juntos e cuidado com o caminho. O final da gruta ainda não foi descoberto, diz uma lenda que acaba em Minas Gerais.

- Outra lenda – continuou o outro guia – diz que existe uma jovem presa aqui dentro, mas ela nunca foi encontrada. Alguns visitantes dizem ouvir gritos e lamúrias de vez em quando, mas o som que a gente escuta é o vento passando pelas frestas das rochas.

O primeiro guia começou a falar da geografia do lugar. Da umidade relativa do ar, a pressão atmosférica, a altitude e a distância do Equador. Mas Carlos não estava interessado nessas informações, estava mais interessado em beijar sua bela namorada. Olhou o relógio, que marcava nove e dez, e seguiu as pessoas que entravam na misteriosa gruta. O guia continuou falando:

- As pesquisas feitas no local nos levam a acreditar que a gruta é do período Paleozóico, que tem em média 400 milhões de anos. Dentro da caverna são encontrados estalagmites e estalactites que demoram cerca de 100 anos para crescer 1 cm. Vários animais são encontrados no parque entre tatus, iguanas e cobras, na gruta já foi encontrado uma vez um morcego albino. Ubajara quer dizer Senhor da canoa e recebe em média 75 mil visitantes por ano, mas a maior movimentação é nas férias e feriados prolongados. Nas décadas de 40 e 50 aconteciam rituais religiosos dentro da gruta, como batizados e casamentos e a prova é que deixaram uma santa de lembrança.

Ninguém pareceu notar que no meio da visita o grupo ganhou mais uma participante. Uma garota bem pálida e magricela se juntou aos turistas. Vestia uma camiseta branca e calça jeans, ambas masculinas e tinha uma feição de quem procurava sutilmente por alguma coisa. Ninguém pareceu notar também que essa garota magricela levou dalí sem dificuldade o morenão e a namorada dele.

Carlos não entendia como aquela menina franzina conseguia segurar seus dois braços com uma mão só. E nem entendia como ela podia ser tão gelada. Tentou se desvencilhar sem sucesso da moça.

- Nem adianta tentar – disse a garota pálida – não adianta gritar também.

Sara estremeceu e se arrepiou dos pés à cabeça. Com uma rapidez impressionante a moça pálida amarrou os dois com as mãos às costas. Amarrou os pés de Sara e estava amarrando os de Carlos quando ele deu-lhe um chute bem no meio da cara. Ela desequilibrou-se e caiu sentada no chão, ao mesmo tempo em que seus olhos se transformaram em duas bolas cor de brasa assustadoras. Mas logo se apagaram. Foi a vez de Carlos estremecer dos pés à cabeça.

Ela levantou-se mais rápido do que quando os amarrava e segurou Carlos pela traquéia. Ele sentiu uma enorme dor e falta de ar. A branquela aproximou-se ainda mais dele, farejando-o. Largou-o agonizante no chão e disse:

- Por volta de trinta anos... Uma das melhores safras – tinha uma voz inquietante, calma, mas sinistra – E moreno assim, é uma delícia.

Acendeu um candelabro com sete velas. Os dois puderam notar com a melhora da luz o quanto a moça era pálida. Tinha olheiras e uma fisionomia sinistra. Sara começou a chorar.

- Ah querida – disse com sarcasmo enquanto se agachava entre Sara e Carlos e limpava calmamente as lágrimas do rosto dela. – prometo que não vai doer. Só um pouquinho, uma mordidinha de nada.

Um gemido de dor saiu das sombras e assustou o jovem casal. A moça pálida pegou o candelabro e caminhou até o final da sala. Lá os dois puderam ver uma jovem de cabelos negros deitada sobre umas rochas. Estava num estado deplorável. Vestia-se de trapos e parecia terrivelmente doente. Ela levantou um pouco o rosto e Carlos notou como as duas eram parecidas. Carlos notou também uma enorme caixa de madeira encostada na parede.

- Não se preocupe, tá tudo sobre controle.

- Por favor, não machuca a gente. – pediu Sara em prantos – É dinheiro que você quer? A gente te dá.

- Eu não quero dinheiro – disse tranquilamente arrumando alguns objetos na mala – Nem ela.

- O que você quer, então?

Ainda agachada ela virou e mirou os dois por um instante. Talvez eles merecessem essa explicação.

- Eu quero seu sangue – disse simplesmente – ela quer sua carne. E voltou ao que fazia.

Carlos não sabia se ria ou levava a sério. Essa história de sangue parecia absolutamente ridícula, mas por outro lado estavam no escuro de uma gruta com uma moça pálida e gelada feito um picolé. Resolveu levar a sério. Quando enfim começou a pensar racionalmente chegou à conclusão que não veria a luz do dia novamente. Rezou todas as orações que sabia e disse à namorada que a amava, mais que tudo no mundo. Só restou aos dois esperar.