Passava das duas da tarde quando a vampira acordou. Levantou-se de sobressalto, os olhos acesos. Apurou o ouvido e conseguiu descobrir o que a havia despertado. Ouviu vozes. Seus olhos brilharam um pouco mais forte e ela pode distinguir com clareza que eram três homens e sobre o que conversavam.
- Já o sol se põe, vamos ter que parar as buscas. – disse o primeiro homem.
- Se é que eles estão aqui mesmo... – continuou o segundo.
- Onde mais estariam? Procuramos na cidade toda, depois que descemos ontem ninguém mais os viu.
- Ah, o senhor é daquele grupo de turistas de Fortaleza. – falou novamente o segundo.
- Isso mesmo.
A vampira foi se aproximando dos três. Sendo guiada pelo som das vozes. Escondeu-se num ponto escuro e ficou os observando a certa distância. Viu que dois eram guias e o terceiro era um homem que aparentava 50 anos.
- Um grupo grande daqueles é difícil mesmo notar quando um casal some. – disse o primeiro guia depois de um tempo.
- Mas se preocupa não, a gente já tá craque.
- Como assim vocês tão craques?
Os dois pareceram meio constrangidos em falar. Olharam-se.
- Fala homem!
- É que – começou o primeiro – essa não é a primeira vez que a gente procura gente por aqui.
- É, essa gruta tá ganhando fama de mal assombrada.
- Quantas pessoas vocês já tiveram que procurar?
Houve um breve silêncio. Os dois olharam-se novamente.
- Umas dez, doze. – falou o primeiro.
- Por aí. – disse o segundo.
- Mas o mais estranho é que todas elas desapareceram na mesma época.
- Que época?
O segundo guia olhou sério para o senhor.
- Quando a lua tá cheia no céu.
A vampira ficou observando a busca dos três. Quando o senhor de distanciou um pouco dos dois guias o puxou para um canto escuro. Acendeu os olhos. Era mais persuasiva assim. Encostou o homem nas rochas prendendo o pescoço dele com o braço.
- Se você não quer que seus amigos morram volte amanhã à tarde. Na visita normal e sem acompanhante. E segredo.
E desapareceu na escuridão tão rápido como chegou. Os dois guias se aproximaram e encontraram um homem que aparentemente acabava de ver um fantasma.
- Que houve seu Macedo?
- Um leve mal estar. – disse se recompondo. – Minha pressão baixou, mas já me sinto melhor.
Os três saíram. Macedo ajudado pelos outros dois. Subiu ainda atordoado. Mas não comentou com ninguém sobre o que tinha visto. Sobre quem tinha visto. Se falasse pra alguém achariam que estava louco. Ninguém acreditaria que na gruta existia uma moça branca feito fantasma, de olhos acesos e que se movia como espectro. Passou o resto do dia pensando no que viu. Se perguntando se tinha sido real. Quando estava acreditando dizia pra si mesmo que era impossível. Quando achava impossível se convencia de que não era louco e que tinha visto sim o que viu.
Resolveu acreditar nos seus sentidos. Viu mesmo os olhos dela acenderem como brasa que queima lentamente. Resolveu obedecê-la. Não disse a ninguém e na tarde seguinte voltou sozinho à gruta. Outras pessoas também visitavam, mas não havia ninguém conhecido. Se colocou atrás do grupo que se formava e entrou novamente na caverna.
Macedo olhava insistentemente ao redor, procurando. Em sua cabeça repassava o filme do encontro com a jovem. Ao mesmo tempo se enchia de indagações: “De onde ela veio? Como não a vi chegar se ela tava bem na minha frente? Pra onde ela foi? Como sabia do Carlos e da Sara? Porque os olhos dela estavam acesos?” Foi então que sentiu uma pessoa atrás de si. Era a moça pálida.
Antes que pudesse falar qualquer coisa foi puxado pelas frestas das rochas numa velocidade tão grande que ficou tonto. Encostou-se na parede rochosa. Quando enfim olhou ao redor ficou abismado. Uma moça estava deitada numa rocha, havia velas espalhadas pela sala e num canto uma grande caixa de madeira.
- Quem são vocês?
- Isso não é importante agora. – disse a vampira virando-se – o que importa é que você vai tirar a gente daqui. Pelo que entendi você está em companhia de um grande grupo de turistas. Que acabou de sofrer dois desfalques. Logo tem vaga pra minha irmãzinha ali.
- Você falou do Carlos e da Sara, onde eles estão?
Ela se aproximou olhando nos olhos dele.
- Se eu te contar você tira a gente daqui?
Ele pensou um pouco.
- Tiro.
- Tem certeza que você quer saber, né?
- Tenho sim. Onde eles estão?
- Mortos. – disse simplesmente.
- O quê?
- Mortos. Agora o plano.
- Como assim, que planos? Que história é essa de que eles tão mortos?
- O senhor pediu e eu falei. Seus dois amigos morreram. Pronto. Esquece isso. Agora o plano. – e olhou pra ele – pra tirar a gente daqui. Na verdade pra tirar ela daqui. Você vai subir e arranjar um local pra ela ficar. Amanhã ela já vai estar bem. Posso sugerir o quarto do casal? Quando vocês voltam?
Macedo ainda estava atordoado.
- Alô? Quando vocês voltam pra Fortaleza?
- Depois de amanhã, duas da tarde.
- Perfeito.
- O que está havendo, pelo amor de Deus!?
- O senhor quer a versão curta ou a longa?
Macedo não sabia o que responder. Aparentemente só ele achava aquela situação incrivelmente bizarra.
- Ok, é o seguinte: Tá vendo aquela moça ali? Ela é um lobisomem. Eu sou a irmã gêmea dela e sou uma vampira. Ontem ela se transformou numa besta peluda e violenta e comeu seus amigos. – parou um instante pra ter certeza que tinha dito tudo – Mas eu os matei antes. Por necessidade somente, não foi pessoal.
- Por necessidade? Você matou meus amigos por necessidade!?
- Calma, não precisa fazer alarde. Sim, foi por necessidade. Ou você acha que é fácil pelejar com um lobisomem?
- VOCÊ É LOUCA!
- Não, vampira. – e acendeu os olhos. Mostrou os caninos também.
Só então Macedo percebeu que ela falava mesmo a verdade. Era uma vampira, a outra era uma lobisomem e ele tava metido numa enrascada. Gelou dos pés a cabeça e sentiu medo como nunca tinha sentido antes.
- Podemos focar no plano, agora? Muito bem. Eu não posso tomar sol, por isso existe aquela caixa ali. Mas ela pode, então ela vai no ônibus com você.
- E você vai onde?
- Na caixa. Achei que tivesse ficado claro. Ela vai ficar com você amanhã durante o dia. Anoite eu levo a caixa e vocês me colocam no bagageiro. Entendido?
- Entendido.
- Muito bem, pois agora você deveria ir. Já está tarde.
- Tá certo.
Mas antes que ele saísse ela pegou seu pulso. Os enormes caninos apareceram e ela o mordeu, bebendo alguns goles de sangue. Depois limpou a boca nas costas da mão e disse:
- Funciona como um radar. Pra eu te achar depois.
Macedo saiu deixando as duas. Voltou normalmente ao grupo e à entrada da gruta. A vampira começou a guardar as coisas na caixa. Roupas, velas, uma garrafa térmica e algumas tigelas. A lobisomem chamou a irmã.
- O que foi? Tá sentindo dor?
- Não. To com sede.
A vampira caminhou até a enorme mala e pegou a garrafa que acabara de guardar. Colocou água em um copo e entregou a irmã.
- Porque a gente vai embora? – disse realmente cansada e segurando o copo com as mãos trêmulas.
- Porque as pessoas já começaram a suspeitar. Sempre na lua cheia alguém desaparece. Tá na hora de ir.
- E a gente vai pra onde?
- Pra casa do Rio.
- Mas você disse que não queria voltar lá.
- Querer eu não queria. Eu sei que ele vai ficar chateado comigo, ele me fez prometer que não voltaria. Mas nossa situação pede, é inevitável.
Mas a lobisomem não escutou as últimas palavras da irmã. Sua transformação havia começado.
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