quarta-feira, 19 de maio de 2010

Capítulo V

A lobisomem acordou assustada, principalmente por estar em um quarto estranho e com um homem que não se lembrava de ter visto. Olhou ao redor procurando por pistas que ajudassem a esclarecer o que tinha acontecido. Macedo tentou tranquilizá-la:

- Tá tudo bem, sua irmã que trouxe você.

Então ela lembrou vagamente do que tinha conversado com a vampira no dia anterior. Aparentemente a irmã já tinha colocado o plano em ação.

- Ah, o senhor é aquele da gruta?

- Isso mesmo. – disse Macedo olhando fascinado pra garota – me chamo Macedo.

- Prazer. – respondeu a lobisomem um pouco constrangida.

Lembrou-se da conversa entre ele e a irmã na gruta. A vampira explicava a Macedo como os amigos dele tinham desaparecido. Sentiu-se culpada.

Macedo levantou-se dizendo:

- Sua irmã pediu que vestisse isso. – e entregou a roupa de freira.

- Ela deve tá brincando, né?

Macedo deu de ombros. Não conhecia vampiros tão bem assim pra saber quando estavam fazendo piadas. A lobisomem levantou-se sem se preocupar com o fato de que vestia apenas uma blusa. Estava bem melhor do que no dia anterior. Com exceção de alguns pequenos hematomas, que Macedo viu quando ela ainda estava nua, parecia uma garota saudável.

A lobisomem era um pouco mais forte que a vampira. Tinha braços torneados e pernas fortes e um abdômen bem definido. Tinha um porte atlético. Diferente da vampira que era até bem franzina. Magricela dos pés à cabeça.

- Será que você consegue arranjar umas roupas de baixo? – perguntou abrindo a porta do banheiro.

- Vou ver o que posso fazer.

Macedo se dirigiu a uma cômoda, abriu a primeira gaveta e retirou algumas cédulas de uma carteira. A lobisomem deduziu que estavam no quarto dele. Macedo saiu depois que colocou as notas no bolso, deixando a lobisomem só. Caminhou pela cidade atrás de “roupas de baixo” para a lobisomem. Quando notou que estava no meio de uma feira.

Dezenas de barraquinhas aglomeradas que vendiam de tudo. Roupas, utensílios de cozinha, objetos de decoração, móveis, ervas, artesanatos entre outros vários. Macedo avistou uma barraquinha que servia ao seu propósito. Falou para vendedora que precisava comprar peças de roupa pra filha, que tinha perdido a bagagem. Entre elas as tais roupas de baixo.

A vendedora ficou extremamente feliz com a quantidade de coisas que Macedo comprou. Ele saiu de lá com três sacolas cheias de blusas, shorts, calças e lingerie. Voltou para o hotel, onde encontrou a lobisomem vestida de freira esperando por ele.

- Nossa, quanta coisa! – disse ela vendo as sacolas

- Me pareceu que vocês tavam precisando.

Ela o observou por um instante.

- Porque tá fazendo isso? Porque tá ajudando a gente?

Macedo virou-se e encontrou os olhos da lobisomem. Ela o encarava intrigada.

- Você lembra o que aconteceu ontem anoite? – Perguntou Macedo.

Ela não respondeu. Tentava lembrar, mas era traída por sua própria memória.

- Teve um momento onde sua irmã escutou seu chamado. Ela foi ao seu encontro me deixando pra trás.

A lobisomem lembrou-se. De repente tudo ficou claro.

- Um casal brigava e o marido batia na mulher.

- Depois que vocês voltaram perguntei o que tinha acontecido. Sabe o que ela respondeu? “Minha irmã queria que eu resolvesse um assunto, e não é sábio irritar um lobisomem.”

- Mais alguns segundos eu entraria em fúria. – disse baixando a cabeça.

Houve um breve silencio. Então a lobisomem lembrou-se da pergunta que tinha feito.

- Mas eu perguntei por que você está ajudando a gente.

- Porque é igualmente sábio não irritar uma vampira.

Passava das quatro quando os dois saíram do hotel. Procuravam o responsável pela excursão. E descobriram que era uma senhora pescoçuda e rabugenta chamada Laura.

Macedo começou explicando porque os amigos não iriam voltar junto com eles. Aparentemente os dois decidiram conhecer cidades vizinhas e voltariam por conta própria para a capital. E a irmã fajuta pediu docemente para ocupar o lugar vazio do ônibus, já que estava mudando de paróquia.

A pescoçuda rabugenta, como boa beata que era, deixou. Anoitecia quando tudo foi acertado. Irmã levaria apenas uma mala, do tamanho de um caixão, com todos os presentes de boa viagem que tinha recebido. Macedo ajudaria a carregar e todos se encontrariam na praça principal às duas da tarde.

Os dois caminhavam de volta ao hotel quando avistaram a vampira sentada na grande mala. Por sorte estavam na rua atrás do cemitério. E essas ruas geralmente são desertas. A vampira entregou a mala à irmã dizendo:

- Vejo já vocês.

E desapareceu pulando nos telhados das casas. Macedo e a lobisomem continuaram a caminhada até o hotel. Com certa dificuldade colocaram a mala para dentro do quarto. Macedo se assustou ao ouvir o chuveiro ligado. A lobisomem não parecia surpresa.

- É ela que tá aí? – perguntou para a lobisomem.

Ela apenas confirmou com a cabeça deitando-se na cama.

- Vocês não comem?

- Ela não, eu vou comer a partir de amanhã.

Macedo pegou o telefone e pediu o jantar no quarto. Frango assado com farofa. Sentou-se numa poltrona e começou a repassar os últimos dias na cabeça. Lembrou-se que há uma semana levava uma vida normal, onde se preocupava com futebol e com o preço da gasolina.

A vampira apareceu com roupas novas. Parecia menos magricela assim. Sentou-se na cama ao lado da irmã e ficaram assistindo TV. Quem olhasse diria que eram duas garotas completamente normais. Só então Macedo percebeu que tinha uma vampira e uma lobisomem no quarto dele.

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