quarta-feira, 12 de maio de 2010

Capítulo IV

Na segunda noite de transformação a lobisomem ficava ligeiramente mais calma. Ainda era uma besta descomunal, mas conseguia reconhecer a irmã e se controlar um pouco. A vampira fazia o possível para não irritá-la. Bastava apenas um contratempo para que a lobisomem entrasse em fúria, se isso acontecesse “Deus nos acuda” seria pouco.

A lobisomem saiu da gruta acompanhada ao longe pela vampira. O sol tinha se posto há alguns minutos livrando a vampira de um grande incômodo. A lua cheia despontava por trás da imensa parede rochosa. A lobisomem pulou sobre um grande rocha e uivou melancólica.

- É, eu sei... – disse a vampira sentando-se na primeira pedra que encontrou.

A lobisomem olhou para a irmã. Depois voltou o olhar para a lua e uivou novamente.

- Tá, eu não sei...

A lobisomem saiu saltando sobre as pedras e sumiu no meio da mata.

- Tá bom, a gente conversa mais tarde. – disse a vampira e começou a escalar as pedras também, mas na direção oposta.

Depois de alguns minutos estava na cidade. Algumas pessoas a olhavam com estranheza. Não só porque usava roupas masculinas, mas também porque era extremamente pálida. A vampira caminhava despreocupada. Em sua cabeça bolava um plano mirabolante. Mas não demorou muito pra achar a resposta que faltava para seu estratagema. Foi olhando para uma escola que teve a idéia. Dentro do terreno da escola a vampira avistou duas torres com um grande crucifixo entre elas. Era uma escola católica.

Deu uma olhada ao redor e sem avistar ninguém pulou o muro. Caiu silenciosamente do outro lado. Foi se esgueirando entre as arvores e sombras. Percebeu algumas luzes acesas a uns 50 metros.

Atravessou o pátio da escola em direção a casa das irmãs. Os olhos acenderam e ela pode ouvir tudo o que acontecia lá dentro. Parou em frente a uma janela. Usando sua velocidade impressionante não só pulou a janela como atravessou a sala sem ser vista. Parou no corredor da casa.

A vampira matinha os olhos acesos e os ouvidos alertas. Por sorte não havia movimento naquela parte, todas as freiras jantavam na cozinha. No corredor havia seis portas. Três de cada lado. Entrou na primeira do lado esquerdo. No quarto havia apenas uma cama de solteiro, uma cadeira, um criado mudo e um guarda roupa de duas portas. Abriu e encontrou o que procurava, mas o hábito era grande demais. Com certeza pertencia a uma freira gorda. Jogou o hábito no guarda roupa e saiu do quarto.

Entrou na próxima porta. Um quarto exatamente igual ao outro. Abriu o guarda roupa e dessa vez encontrou um hábito mais adequado ao seu tamanho. Ainda era maior que ela, mas com certeza servia. Quando saiu do quarto foi surpreendida por duas freiras que conversavam andando em sua direção. Usou a velocidade e quase esbarrou numa das irmãs.

- Ave Maria! O que foi isso? – se assustou a irmã mais idosa ao sentir um vento passar por ela abruptamente.

Mas a vampira já estava longe. Pulava novamente o muro e aterrissava sem peso na calçada. Caminhou um pouco com a vestimenta na mão. Ao notar que já tinha se afastado o suficiente fechou os olhos. Parou para sentir onde Macedo estava. Era como se sentisse o cheiro dele de longe.

O que a vampira não tinha notado é que parou exatamente na frente de um bar. E os homens que lá estavam soltaram piadas engraçadinhas sobre sua roupa.

- Ei boneca, onde arrumou essas calças?

- Tenho certeza que dá pra colocar umas mangas aí dentro.

A vampira riu. Caminhou vagarosamente até o primeiro Zé Mané e parando bem em frente a ele disse:

- Sabe onde consegui essa roupa? Estava no corpo do cara que eu matei porque me fez pergunta idiota. – e dizendo isso acendeu os olhos.

A vampira estava com o nariz quase colado no nariz do homem. Que repentinamente ficou pálido. Mas ela os apagou logo. Não queria chamar atenção. Continuo andando. Deu uns seis passos e virou-se. O grupo de homens ainda a encarava. Ela riu acendendo o olho mais uma vez, e no riso deixou escapar um dos caninos.

Macedo saía de um restaurante com alguns amigos quando viu a vampira encostada num carro esperando-o. Assustou-se a princípio, mas lembrou-se do que ela disse sobre o radar. Ele educadamente dispensou os amigos e se juntou a ela que já esperava na esquina. Ela entregou-lhe o hábito.

- Agora só falta achar minha irmã. Faça ela usar isso amanhã o dia todo.

- Tudo bem.

- Ah, só mais uma coisa. – e mordeu-lhe o pulso. Tomou cinco grandes goles. – Pronto, podemos ir.

- Porque você fez isso?

- Ser vampira às vezes cansa.

E os dois saíram em busca da lobisomem. Não foi fácil encontrá-la. A vampira parava no meio da rua e apurava os ouvidos, mas perdia o som que tinha escutado e nem tinha certeza se era a irmã mesmo. Macedo não sabia o que fazer, já que uma vampira que o sentia a 500 metros não conseguia achar uma lobisomem como é que ele, um reles mortal, conseguiria?

Macedo começava a se mostrar cansado. A cidade há horas tinha caído num silêncio tranquilo. Ao longe algum cachorro latia, quando não era um farfalhar do vento nas árvores que chamava a atenção da vampira. Passava das três quando os dois começaram a seguir uma pista verdadeira.

Um uivo longínquo chamou a atenção da vampira que acendeu os olhos instantaneamente. Macedo sabia que dessa vez era real. Percebeu na intensidade com que os olhos brilharam. Bem mais forte que o normal. Também pelo modo como a vampira disparou.

- Não se preocupe – disse ela se afastando – eu acho você.

E desapareceu na cidade que começava a mostrar uma neblina sinistra. Macedo se viu sozinho no meio da noite. Sem ter o que fazer resolveu caminhar até encontrar um bar que ainda estivesse aberto. Não demorou a achar um, seus amigos tinham informado quais as ruas mais interessantes da cidade.

A vampira também não demorou a achar a irmã. Quando a encontrou ela uivava de cima de uma farmácia.

- Pronto cheguei. O que foi?

A lobisomem foi pulando sobre os telhados com a vampira acompanhando. A uns trinta metros a vampira entendeu o porquê do chamado da irmã. Um casal brigava na casa abaixo delas. E o marido estava mostrando para a esposa que grande cavalo ele era. Sem pensar duas vezes a vampira desceu e chutou a porta que se abriu sem cerimônia.

- Então, o senhor gosta de bater em mulheres? Porque não briga com alguém do seu tamanho?

Se fosse uma piada seria engraçada. Levando em conta que o homem era duas vezes maior que ela. Mesmo assim soltou a esposa e caiu na provocação da vampira. Ela com apenas um soco o jogou do outro lado da sala nocauteado. A mulher agarrou em suas pernas e disse um “obrigada” entre lágrimas.

- Se eu fosse você largava ele. – disse saindo.

Lá fora a lobisomem aguardava.

- Pronto, já fiz minha boa ação de hoje. Hora de ir embora. Já já amanhece.

E assim as duas saíram pela noite até reencontrar Macedo, que por falar nisso resolveu se esconder no pior canto possível: um cabaré. Se bem que naquela hora da madrugada era o único lugar aberto da cidade.

- Muito inteligente se misturar a sete zilhões de cheiros! – disse a vampira preocupada com o amanhecer iminente.

- Porque você demorou tanto?

- Ela queria que eu resolvesse um assunto. E não é sábio irritar um lobisomem.

Macedo se assustou ao ver a lobisomem.

- Relaxa, ela não vai fazer nada. Assim que o dia amanhecer ela vai voltar ao normal. E você vai ter que levar ela pro seu hotel. Eu tenho que ir agora, senão viro farinha. É só chamar que ela vem.

E dizendo isso a vampira desapareceu. Utilizou sua velocidade o máximo que pode e entrou na gruta com os olhos ardendo por causa da claridade das cinco da manhã. Sentia-se exausta e faminta, se é que poderia sentir-se faminta. Mas sabia que a fome não era de comida. Aquele último esforço pra chegar antes do sol nascer queimou todo o sangue que tinha bebido.

Macedo falava com a lobisomem como se esperasse resposta. Mas conseguiram se entender. Assim que o primeiro raio de sol apareceu no céu uma moça muito bonita começou a surgir no lugar da fera. Macedo vestiu sua blusa nela e a carregou nos braços até o hotel. Por sorte estavam perto. E por sorte ninguém os viu.

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